O amor romântico não vai curar você

Link da imagem: https://www.mensagenscomamor.com/textos-amor-proprio

Amor, uma palavra tão usada, porém tão pouco problematizada, nos acomodamos com a comumente retórica pergunta "O que é o amor?" e dela nunca saímos e, pelo visto, nunca sairemos. Confesso que, para mim, por mais que eu já tenha escrito sobre ele, ou melhor, utilizando-o, é sempre difícil falar sobre tal sentimento... Ou emoção... Ou estado de espírito... Enfim.
Porém há algo que me intriga nessa palavra, ou melhor, no sentido que a sociedade atribui a ela. O amor romântico, esse sim é um sujeito intrigante e, acredite se quiser, bastante perigoso. A questão é que, analisando a forma em que a sociedade se relaciona no século XXI, percebe-se que sujeitos e nomes foram modificados, porém certos modelos continuam os mesmos.
Não conseguimos ainda sair do modelo dos "contos de fada". Da famosa Cinderela que é resgatada da vida de pobre e destratada, por um príncipe que a leva para um castelo. Ou então da doce Bela, que cura a fera de sua maldição, graças ao seu "amor verdadeiro". Então, vem a seguinte questão: até que ponto esse amor verdadeiro não é uma invenção da sociedade? Ou melhor, uma construção social? E, o quão perigoso é acreditar que esse tal amor pode salvar um outro alguém ou até a si mesmo?

Nesse momento, podem vir quantos "pós modernistas" quiserem para virem dizer que essa visão já foi desconstruída e que, na verdade, hoje em dia vivemos no outro extremo (o que seria, zero amor romântico) e toda aquela ideia de que não amamos ou não buscamos mais pelo amor... Bom, na minha opinião, isso não é 100% verdade. Tudo bem que os jovens escondem-se naquela famosa idéia de "ficar". E nesse "ficar" mágico não há necessidade de apaixonar-se, de se comprometer, pois são relações mais alternativas e toda essa história. Mas, não sejamos hipócritas, a verdade é que tudo isso vem com a marca de "ser jovem"(principalmente se for um jovem rico, de classe média, normalmente um homem, se tratando de privilégios). A partir de uma certa idade é esperado que esse jovem "tome um rumo na vida" e isso está diretamente ligado à questão do amor, pois a partir desse momento o jovem se desconecta das "experiências" e passa a procurar "O alguém".
Então, voltamos para aquele amor romântico, pois para preencher os requisitos para classificar-se como tal, é necessário que seja: monogâmico, recíproco, enlouquecedor, duradouro e (o mais assustador de todos) que dê sentido a sua vida. Não podemos ignorar que vivemos sim em uma sociedade doente, a quantidade de jovens com ansiedade, depressão, baixa-estima e várias outras questões psicológicas é ENORME.
Tradução: (durante entrevista perguntam a Cher) - Você disse "Um homem não é necessidade, é um luxo"
(Cher responde) - Como sobremesa. Minha mãe me disse "Um dia, você deve se aquietar e casar com um homem rico". Eu disse "Mãe, eu sou o homem rico"
O problema é que incorporamos o amor dos "contos de fada" para a atualidade. Se antes a princesa salvava o monstro da sua maldição, hoje ela ou ele salva seu parceiro ou parceira da depressão, ansiedade, etc. Ou seja, se reproduz a ideia de que não somos seres auto suficientes e nessa lógica amar deixa de ser QUERER estar com alguém e torna-se PRECISAR estar com aquele alguém.
Não me levem a mal, no sentido estrutural e psicológico da sociedade e do indivíduo, realmente precisamos dos outros. O ser humano não é um ser para viver sozinho, isolado de seus iguais, mas isso é algo básico... Precisamos sim daquele vizinho que te lembra todos os dias que há mais gente no prédio, ou do amigo militante que te faz pensar em movimentos sociais, ou do professor que te ensina a pensar a sociedade, ou do médico que cuida da sua saúde, etc. Precisamos da existência e da interação social, mas não do corpo e de todo o emocional deles... "Ah, mas que exagero!" pode-se pensar, porém é só observar melhor para percebermos que é exatamente assim que temos exagerado no amor.
Nesse ponto chegamos a questão da sociedade construir o amor. De forma básica, pode-se explicar em alguns pontos. A medicina antiga, formada por indivíduos da sociedade, determinou que a vontade sexual era biologicamente "normal", a partir desse momento sexo deve estar relacionado ao amor, afinal se constrói a ideia de que os primeiros sinais de que você "quer" alguém é o desejo sexual que você tem por essa pessoa. Seguindo, há os atos, então toda demonstração de afeto e carinho deixa de ser algo comum entre pessoas e torna-se algo particular daqueles que se relacionam, ou possuem tal intenção. Pegar na mão, beijar, etc, esses são atos construídos socialmente... "Ah, então quer dizer que o prazer que eu sinto com esses atos não é natural?" Na verdade, a ideia do natural já é algo contraditório, porém, para não ter que discutir isso, vamos apenas entender que as respostas corporais são treinadas, você não chora apenas porque se sentiu triste, você chora porque a sociedade te ensinou que o seu choro é a resposta correta para isso, portanto você não o contém, e assim não o inibe.
Claro que as experiências citadas acima não são exclusivas do amor, nem todas farão parte dele, mas na sua maioria, são atribuídas a ele. Com o tempo chega a famosa "prova de amor". A que, na verdade, não prova nada. Falando sério, a prova de amor na nossa sociedade pode ser lamber o nariz, se você não o conseguisse isso não diria NADA sobre seu sentimento individual para com alguém, porém social e culturalmente isso iria influenciar como os outros te vêem e como você vê a si mesmo, como alguém incapaz de amar.
O fato é que as expectativas postas em cima daqueles que dizem que se AMAM, na nossa sociedade, são impossíveis de ser seguidas a risco. Os seus beijos não vão tirar seu namorado da depressão, se ele não está sendo acompanhado por um médico, o elogio de seu marido não vai fazer com que você se ame mais e tenha auto-estima elevada, caso você não se ame verdadeiramente mesmo se estiver sozinha. O "amor"(caso este tão fantasioso realmente exista) pode ajudar, porém ele não deve ser feito para isso, não deve ser obrigação ter ajuda como um de seus artifícios e, de forma NENHUMA, deve ser visto como a única cura, o único meio de felicidade, sua única razão de viver.
Sério, vamos entrar em um raciocínio lógico. Tudo aquilo que é construído e rotulado na sociedade não pode ser personificado, sentido ou vivido plenamente. Nunca haverá uma "caixa social" em que seus sentimentos caberão 100%. O amor passa por esse processo de encaixe social, ou seja, você nunca irá se encaixar 100% no rótulo do "amor", pois este, todo rotulado, não existe.E, gente, se não existe, como vai ser uma cura??????
O pior é que há e continuará havendo pessoas que chegam a perceber que não se encaixam nesse módulo sociocultural do "amor" e, disso, elas se moldam, se mudam, se torturam física, emocional e psicologicamente para poder encaixar-se nisso, para dizerem de cabeça erguida(porém corpo e coração quebrados) "EU AMEI". E, nesse momento, você perde a si mesmo para salvar o outro, que também está no mesmo processo, e assim o amor vira um processo grotesco de constante sucção.
Ainda voltando para o fato de ser construído, é exatamente por isso que é denominado de romântico, pelo fato de que este advém de uma narrativa literária, ou seja, mesmo que a literatura reproduza a experiência prática, ela sempre carregará o fato de vir da cabeça de um indivíduo, o que a torna, em maior parte, teórica, ou seja: é pra ficar lá no livro mesmo e você vá viver sua vida em paz!😜
Pode parecer confuso, porém vou fazer uns pontos de síntese e coisas que devemos nos lembrar SEMPRE quando tratamos desse assunto:


  1. -É SEMPRE FÁCIL FALAR: Eu falo de um problema da teoria invadindo e moldando a prática, porém eu faço o mesmo ao escrever esse texto. Muito dessa lógica romântica acaba resultando em relacionamentos abusivos e é SUPER DIFÍCIL se livrar deles. Por favor, não achem que estou falando que isso é algo da sua cabeça, claro que não, até porque se é uma construção social, a sociedade espera que você se encaixe nisso, portanto é extremamente difícil fugir dessa lógica e, quando conseguimos, nos sentimos (e realmente somos) excluídos e violentados de diversas formas
  2. ISSO ACONTECE EM QUALQUER TIPO DE RELAÇÃO: Okay que, realmente, esse modelo do sujeito se dando e perdendo sua existência para o outro é algo inicialmente heteronormativo, históricamente(a imagem da mulher como submissa ao homem). Porém qualquer relação amorosa entre indivíduos pode acabar reproduzindo esse padrão. Não vamos cair na armadilha do "Ah, comigo isso não acontece".
  3. "IF YOU CAN'T LOVE YOURSELF, HOW THE HELL ARE YOU GONNA LOVE SOMEBODY ELSE?"(Tradução: Se você não consegue se amar, como espera conseguir amar outra pessoa?): Essa é uma frase do programa de Drag Queens americano:  Ru Paul's Drag Race. Amor é uma palavra linda e, só porque é construída socialmente, não significa que ela não carrega sentido e significado. Muitas coisas positivas são atribuídas a ele: o cuidado, a compaixão, o conhecimento, a presença, etc. Porém, ele deve ser algo que vem de você e volte a você. É o famoso lema do avião: em caso de acidente, ponha a máscara de gás antes em si mesmo e depois ponha na pessoa ao seu lado.
  4. E por fim... O AMOR ROMÂNTICO NÃO VAI CURAR VOCÊ!: Muitos de nós queremos ajudar o outro para esquecer dos problemas que há em nós mesmos. Se você não estiver se sentindo bem, converse com alguém, escreva sobre isso (ou pinte, ou dance, ou cante), procure ajuda médica, faça tudo que for seguro, mas, por favor, não ache que procurando alguém que te "ame de verdade" você vai se curar disso. Por acaso, é até uma visão egoísta acreditar que alguém pode abdicar de sua própria vida para cuidar da sua. Mais empatia, né amores?
PS: POR FAVOR, não saiam desse texto desiludidos e chorando. O amor existe e realmente, ele sempre vence. Quer uma prova disso? Vá entregar flores para seus vizinhos, abrace uma árvore no meio da rua, participe de movimentos sociais e ONGs e veja o que essas pessoas pautam, ajude quem precisa, sorria para quem está triste e diga "vai ficar tudo bem" e, se você realmente quer ajudar alguém mal, um simples "eu estou aqui" faz toda a diferença. No fim, você perceberá que o amor está bem debaixo do seu nariz...

#Ubuntu

Comentários

  1. Realmente o amor romântico é algo muito complexo e potencialmente perigoso, principalmente quando essa
    construção é vendida para cidadãos que estão iniciando a própria formação intelectual (crianças principalmente), pois há a construção de "paredes intelectuais", você limita e controla os ideais do individuo, e com um "merchan" posto de forma subjetiva num mercado intelectual com produto limitado e rotulado como perfeito, você cria proletários vitimas de um consumismo do artificial e incapazes de analisar e ter quaisquer ideia e vivencias relacionadas a personificação de substantivos abstratos como o amor.

    ResponderExcluir
  2. Exatamente! E com isso cria-se duas vertentes complicadas de sair: ou você acredita que o amor é algo "difícil demais" criando uma geração de pessoas inconformadas com o amor, sem perceber que este é criado socialmente, ou então você acredita que o amor é fácil e supérfluo e acaba tornando-se escravo do consumo para aumentá-lo como por exemplo o dia dos namorados, ou a própria indústria de beleza que o faz ficar bonito "para alguém" e não para si mesmo

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas