Não sou "moreninha da cor do pecado"!


Imagem de Denise Silva, Denisenhando: https://www.facebook.com/denisenhando/ 

“Não sou moreninha da cor do pecado”, uma vez encontrei essa frase na internet, e ela me remeteu a uma lembrança constante da minha infância até a adolescência, uma memória vívida e constante, como um córrego que atravessava meu corpo de tempos em tempos, me avisando que estava ali...
Desde pequena minha cor era invejada, eu era a famosa “morena”, não tinha nem a pele negra, preta, considerada “escura”, do meu pai, nem a pele branca, quase pálida, considerada clara, da minha mãe. Não, eu era morena, era “moreninha”. Tenho lembranças vagas de minha mãe se queimando no Sol tentando ficar como eu, entretanto me lembro também das mães de crianças, um pouco mais escuras que eu, mandando suas filhas ficarem longe do Sol, pois senão iriam ficar “muito pretas”.
Era um tanto contraditório para mim, minha mãe que era branca, querendo ficar preta, mas as mães das crianças pretas querendo que elas “clareassem” um pouco, mas nunca questionei. Na verdade, eu até gostava de ser considerada uma garota de pele “bonita”, uma garota morena. Quando cresci, a atenção voltou-se para o meu corpo, nem era considerada adolescente ainda, com uns 12 ou 13 anos de idade, mas já recebia frases que me incentivavam a me gabar daquelas “coxas” e aquela “bunda grande” que eu tinha, “parece uma mulher andando” diziam as pessoas.
Sempre fiquei dividida naquilo, pois nunca enxerguei a bunda grande, nunca enxerguei um corpo bonito, na verdade sempre o achei desproporcional. Afinal, minha bunda e minhas coxas eram grandes, mas meus seios não eram tanto assim, meus olhos afinavam no sorriso, porém minha cintura nunca fora fina e meu nariz, Ô meu Deus, meu nariz sempre fora largo demais! É, eu me achava desproporcional.
Me incomodava ainda mais quando as pessoas achavam que seria legal dar um tapa em minha bunda quando eu passasse por elas, nunca soube o motivo de tal ato, mas era comum receber uns tapas ou na bunda ou nas coxas e, aos poucos, me acostumei... Embora hoje tenho a noção de que não deveria ter me acostumado, no fundo aprendi a dar permissão para que outros tocassem o meu corpo só porque o achavam interessante, o achavam um tanto quanto “exótico”.
Exótico, na verdade, era uma palavra que me seguia, não que me chamassem dessa forma, mas eu conseguia sentir que era assim que me viam, uma prova fora uma vez que viajei a Gramado... Gramado, aquele local intocável onde os brancos de lá não se sentem brasileiros, mas ao mesmo tempo não acham conveniente morar na Europa (ou lhes falta dinheiro para tal), Gramado, aquele lugar que era um sonho para mim.
E lá estava eu, em Gramado, aos 14 anos de idade, recebendo olhares admirados de homens mais velhos, aqueles com a “branquitude” velada a ouro, mas com um desejo imenso de dominar, fazer posse de uma moça morena. Engraçado que eu era apenas uma criança, mas por ter aquela cor do pecado, deveria ser uma moça, ó, uma moça morena e linda que eles deveriam dominar, pois lhes era “exótica”. Hoje sei que eu não era exótica coisa nenhuma, minha cor de pele negra é maioria no MEU país, sou maioria no meu país, eles que fossem exóticos!
Porém, ne época, gostei daqueles olhares, daquela necessidade de dominação que surgia neles. Lembro que eu contava os homens que me olhavam na rua, aquilo não estava correto, não apenas por eu ser uma criança, mas também porque eu não deveria ser vista como carne no açougue que eles deveriam examinar, avaliar. Mas lá estava eu, assumindo esse papel, servindo o prato...
Formar minha identidade realmente era difícil, principalmente para mim. Por muito tempo aceitei o “morena”, por muito tempo aceitei que a beleza em mim estava em minha bunda e minhas coxas grandes, aceitei que o cabelo cheio era desarrumado, e aceitei o alisado em minha vida, como uma forma de constatar que eu realmente não era negra, eu era “moreninha”. No fundo nada disso ajudou em minha autoestima, pelo contrário, eu me sentia sem graça, não era nem isso, nem aquilo, então devia ser nada.
A situação piorou quando com 15 anos fui morar na Inglaterra. Passei um ano lá com minha família e algo de muito ruim me aconteceu: “embranqueci”. Não, não me tornei branca, meu cabelo ainda era cacheado, crespo, meu nariz ainda era “grande”, minhas feições ainda eram de uma afrodescendente, dentro dos rótulos preestabelecidos. Entretanto, estava pálida, minha cor não invejava mais ninguém, era motivo de chacota, pois estava fraca, como um tecido desbotado, uma madeira apodrecida, uma areia acinzentada, agora sim, eu não era nada. Não era negra, não era branca, já não era mais morena também, o que eu era? Nada.
E o engraçado, é que isso nunca me impediu de sofrer racismo, naquela cidade fria do norte da Inglaterra: York. Na escola, meus colegas queriam tocar meu cabelo, me perguntavam como eu fazia para que ficasse assim, eu não entendia, como assim “ficasse assim” se sempre fora desse jeito? Era quase um ritual diário que alguém tocasse meu cabelo pelo menos uma vez, às vezes, até puxasse. Eu já era madura o suficiente para entender que aquilo era racismo, entretanto eu era estrangeira demais, submissa demais a cultura deles para me impor, pedir para que não tocassem, chamar eles de racistas e fugir, minha maior vontade era fugir para longe, como um pássaro negro, muito comum nas florestas inglesas.
Outra vez fora quando, no colégio inglês, eu estava conversando durante a aula com duas garotas um tanto populares e uma delas me perguntou de onde eu era, eu respondi que era do Brasil. Ela disse que queria ser brasileira e todos na aula se interessaram e perguntaram o porquê. Ela respondeu que brasileiros tinham a bunda grande e ela gostaria de ser assim também, todos riram. Então, uma nuvem de vergonha pairou sobre mim, enquanto eu andava pelos corredores da escola, me perguntando se era assim que me viam ali, como uma brasileira de bunda grande. A imagem das pessoas batendo em minha bunda voltava e eu me perguntava se ali meus colegas teriam a mesma coragem de fazer isso e se pudessem, será que fariam? “Ela anda como uma mulher” aquela frase agora me doeu como uma facada.
Entretanto, minha pior experiência fora com uma amiga de minha mãe, negra também. Estávamos caminhando pela praça quando um homem daqueles animadores de praça nos parou. Disse que éramos bonitas e perguntou de onde éramos. Respondemos que éramos do Brasil, então a resposta dele foi aquela que eu mais temia: Brasil! SAMBA! Sambem para mim! A amiga da minha mãe fechou a cara, naquele momento, ao olhar para ela, eu me perguntei quantas experiências daquelas ela já deveria ter vivido, e me entristeci pensando em quantas eu ainda viveria.
Aquela experiência me marcou, pensei muito nela depois, porém o triste é que, a princípio, o que me revoltou não foi o fato do homem nos pedir para sambar e sim o que aquela pergunta me fez lembrar, um fato que eu ainda não havia observado sobre mim: Eu não sabia sambar. Como podia não saber sambar! Me lembrei de algo que escutei um dia “Que baiana é essa que não sabe sambar! ”, me lembrei que até minha mãe que era branca sabia sambar, e uma dor surgiu dentro de mim, era aquele “nada” que voltava, além de ter perdido a cor, eu também não sabia sambar!
Me parecia errado, como se fosse algo que eu devesse ter nascido sabendo, ou ao menos aprendido naturalmente, afinal estava em minha pele, como que eu não sabia sambar! E mesmo quando eu queria, não me dava ao luxo, pois sentia vergonha, sabia que seria censurada pela falta de coordenação motora, pela falta de gingado, e, novamente, eu me sentia nada, vazia, o que eu era? Eu não sabia.
Hoje, posso dizer que aprendi muita coisa com tudo isso. Aprendi que não preciso saber sambar, aprendi isso ao entender que as pessoas atribuem isso as mulheres negras, pois atribuem elas a sensualidade, ao sexo, ao pecado, devido a uma cultura escravocrata e machista. Ou, ainda mais a fundo, aprendi que as pessoas relacionam essa carga sexual ao samba, pois estão cobertas de hipocrisia e falso moralismo.
Hoje, aprendi que meu cabelo crespo não é desarrumado, e aos poucos já não me importo com os olhares e as críticas, aos poucos me empodero com meu Black em formação. Aprendi também a ir em lojas de maquiagem e pedir tons para minha pele, e a SEMPRE criticar quando não há tais produtos. Gosto de zoar com essas situações, gosto do rosto de constrangimento de muitos quando lhes aponto seu racismo velado.
Aprendi também que meu problema de identidade não é só meu, é de muitas e muitos, e aprendi que não é minha culpa, a culpa é dessa cultura, dessa história que formou nosso país. Aprendi aliás que essa minha cor “morena”, que é tão invejada, na verdade foi fruto de estupros que os senhores de escravo realizavam em mulheres negras escravizadas e, com isso, aprendi a história que reside em minha pele.
Aprendi tudo isso e tenho aprendido mais, a verdade é que parece ser herança de nós negros viver esse constante “estrangeirismo” em nossa própria pele, de tanto que nos foi tomado, de tanto significado que nos foi apagado. Então, não me sinto sem identidade, minha identidade é assim mesmo, mutante, em constante crescimento, e até que o racismo acabe por total, não deixará de ser assim, pois a mudança é aprendizado e aprendizado é empoderamento!
Hoje me censuro quando eu mesma julgo minha fala como fútil, por falar “apenas” de aparência e identidade, quando muitos negros por aí estão tentando não viver, mas sobreviver. Mas me censuro e me coloco no lugar, reconhecendo meu privilégio de classe e por ser negra de pele clara, mas sabendo que isso não apaga minha voz como pessoa que sofre racismo, enquanto negra sofro racismo sim!
Além disso, aprendi com minha história que aparência e identidade importam sim, afinal como alguém pode lutar pelos seus direitos quando não sabe que direitos são esses? Quando se acha um nada? Quando acredita não pertencer a identidade nenhuma? Como alguém pode lutar sem antes reconhecer a luta em si mesmo? Por isso, hoje sei que me minha história é importante sim.
Por fim, mesmo rodeada de conflitos, rodeada de nadas e vazios que me preenchem de vez em quando, posso dizer com força e convicção que não, eu não sou moreninha da cor do pecado. Eu sou NEGRA, eu sou negra SIM!

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