O meu cabelo não cabe no seu Capelo? Minha identidade não cabe na sua formatura?


"...O tempo foi passando e ela foi crescendo
Agora la na rua ela é a preta do sovaco fedorento
Que alisa o cabelo pra se sentir aceita
Mas não adianta nada, todo mundo a rejeita..."
(Cota não é esmola, Bia Ferreira)

Não adianta os livros que você leu, não adianta as aulas que você frequentou, os movimentos que participou, as histórias que ouviu e o quanto protestou, lutou, gritou. Nos momentos em que a agressão é com você, não tem citação de ativista (que você, por acaso, tem na ponta da língua) que te impressa de chorar, de te fazer se chocar a ponto de te fazer desacreditar em si mesma. Afinal, a culpa é sempre sua, certo? O problema é sempre você, não é?... O racismo é como uma cobra que sorrateiramente te atinge, quando você menos esperava, quando você não estava vendo, afinal você sempre foi confundido, a névoa de acusações de "vitimismo" e "mimimi" te impedem dia a dia de ver a cobra que se aproxima. Nós, negros, sempre estivemos de pés descalços, nos tomaram os sapatos, estamos desprotegidos dessas agressões... Mas não se preocupem, nós mesmos estamos fazendo nossos sapatos...
"Muita gente chora, irmão, enquanto você tá rindo"(Diga não-Bia Ferreira)


O meu cabelo não cabe no seu Capelo?

Lá estava eu, animada para participar de mais uma das etapas da glamourosa tradição da formatura... As fotos com o traje. Entretanto, uma pergunta me seguia e me preocupava constantemente "Meu cabelo vai caber no Capelo?". Para quem não sabe (até porque até ontem eu também não sabia) Capelo é o nome que se dá ao chapéu do traje tradicional de formatura, ele possui um formato redondo, relativamente pequeno, que, como a maioria das coisas, não foi idealizado para cabelos Black Power... Esse era meu caso. 
Dito e certo, quando começaram a pôr o traje em mim, a ansiedade se alastrava pelo meu corpo e eu só conseguia me lembrar das vezes que fotos "formais" me trouxeram tristezas diversas, sendo o meu cabelo uma delas. Houve uma vez que, na escola que estudei na Inglaterra, a fotógrafa tentava constantemente dividir meu cabelo e fazê-lo ficar atrás da minha orelha (quem possui cabelo crespo e cacheado sabe que isso é quase impossível). Houve outra vez que fui tirar uma foto para meu passaporte e meu cabelo "não coube" no tamanho que a foto deveria ter, então o fotógrafo realmente ficou tentando "abaixar" meu cabelo para que coubesse na foto, para que entrasse no padrão. Essas fotos ficaram horríveis e, hoje em dia, embora eu ria junto com meus amigos que veem tais fotos e zoam, inocentemente, as lembranças não tardam a me assombrar.
O homem que estava encarregado de preparar meu traje se deparou com um problema... Eu estava usando um turbante e meu cabelo black estava para cima, ele então perguntou para seu colega "E agora, o que faz? Ela tá com essa tiara", eu não fiz sinal de que iria tirar o turbante então ele tentou "enfiar" o Capelo em minha cabeça. Ele constantemente tentava fazer com que o Capelo se segurasse no meu cabelo, sem muito sucesso, tentava pôr de um lado, do outro, aumentava o tamanho, mas não conseguia... Ele simplesmente não era feito para mim. 
Enquanto ele dizia que não estava cabendo, eu perguntava se eu realmente tinha que usar aquilo, e ele afirmava que sim, que fazia parte do traje, que tinha que ser desse jeito, mas seu rosto expressava impaciência, como se meu cabelo incomodasse, afinal, ele poderia estar pondo o Capelo em muitos cabelos lisos que caberiam perfeitamente naquele formato, por que estava perdendo tempo comigo? 
Enfim ele disse que eu deveria falar com o fotógrafo, então esperei, já nervosa, com medo, com raiva, me sentindo constrangida, será que todos estavam vendo a confusão que o MEU cabelo estava causando? Quando o fotógrafo se aproximou, eu falei em tom muito baixo e assustado "não está cabendo" e ele, de forma bastante grossa e impaciente falou "O quê? É claro que cabe!" e empurrou o Capelo na minha cabeça, dizendo "deixa assim por cima mesmo". Fui tirar a foto me sentindo uma porcaria, mal conseguia sorrir, pelo contrário, eu só queria sair correndo e chorar. Porém eu tinha que voltar para a aula.
Enquanto eu subia as escadas meu corpo se enfraquecia e eu só lembrava de todas as vezes que meu cabelo volumoso fora um problema. As vezes que me perguntaram se eu "não ia dar uma aparadinha, não?", ou que me afirmaram que "estava volumoso, cheio demais". As vezes que me perguntaram se era peruca. As vezes que mãos alheias tocaram em meu cabelo para abaixá-lo, ou que me aconselharam a cortá-lo. Foram muitas, muitas as vezes que essas frases, esses atos pareciam certos, afinal a violência moral se confunde facilmente em meras "opiniões", "conselhos" ou "palpites". São muitas as vezes.
O pior é que aquele era meu momento de brilhar, o início do processo de formatura, minha formatura, meu sucesso... Sucesso de ter passado anos da minha vida aguentando agressões que são confundidas por meras "brincadeirinhas", anos da minha vida contando de dedo os alunos negros na minha sala, anos na minha vida me questionando se eu realmente tinha um lugar ali. Tudo isso para no fim perceber que não, eu não tinha, nunca tive, afinal meu cabelo não cabe no traje, meu corpo negro não cabe na formatura.
 Eu sou 
Um corpo, um ser, um corpo só 
Tem cor, tem corte
E a história do meu lugar
Eu sou
A minha própria embarcação 
Sou minha própria sorte
(Um corpo no mundo - Luedji Luna)


Escrevendo esse relato eu choro, choro, pois sei que, se não fossem as pessoas ao meu redor (minhas amigas que me ajudaram muito quando eu estava em prantos) eu não teria visto isso como RACISMO. Isso porque quando acontece conosco a primeira reação que temos é a constante ideia de que somos culpados, de que somos o problema, de que se falarmos sobre isso estaremos nos "vitimizando". A ideia de que somos impostores em nossas próprias histórias é constantemente introduzida em nossas mentes. Historicamente, negros nunca possuíram o direito de se expressar, de externar sua dor, e o que hoje é apontado como racismo histórico (escravidão, açoites, apartheid, etc), ontem eram leis, eram práticas culturais, eram "normas". Portanto, é muito difícil remover da condição de "normalidade" tais práticas que tanto nos ferem, baixam nossa auto-estima, nos inferiorizam e nos desmotivam a acreditar que "pertencemos" a algum local senão a margem, senão a senzala. 
No pós liberdade
O negro foi marginalizado
Teve a alma aprisionada
Com as algemas da desigualdade
Hoje refugiado em favelas
Onde a vida tem suas mazelas
Combate a miséria, o preconceito e a adversidade
A igualdade e o respeito
Mais do que anseios
Também são necessidades
(...) 
Povo guerreiro, bate tambor
comemora a liberdade
mas a igualdade não chegou
(Povo Guerreiro- Criolo)

Finalmente, gostaria apenas de mandar uma mensagem para outras negras e negros estudantes. Essas situações vão acontecer, o racismo virá como uma cobra, sorrateiro, e quando você sentir a dor da picada, você vai simplesmente achar que se arranhou em algum lugar, por descuido seu, por culpa sua. Você não perceberá o veneno, mas ele se alastra pelo seu sangue mesmo assim, ele estará ali nas vezes que você tentar constantemente abaixar seu cabelo sem sucesso, ou molhar ele todo dia para diminuir o volume, o veneno estará ali quando você não se enxergar em fotos de "formandos", e, principalmente, quando sua única ideia é desistir de se formar, o veneno estará ali quando você diminuir a si mesmo constantemente, pois ninguém nunca vai gostar de você, ninguém nunca vai te achar bonita ou bonito, e ele causará bastante dor quando você perceber que suas referências de admiração e sucesso.... são pessoas brancas de cabelo liso; suas referências de beleza... são pessoas brancas de cabelo liso. Suas referências todas são pessoas brancas de cabelo liso. Quando você menos perceber, o veneno já tomou conta de você. Mas, não se desespere, ele lá matou muito (e ainda mata) mas estamos caminhando e lutando para que não mate mais, estamos criando RESISTÊNCIA, e você vai conseguir, você vai enfrentá-lo. O racismo é uma cobra sorrateira, mas, acredite em você, pois juntos andaremos calçados.

Confesso que nesse momento não sei o que farei com essa história, afinal me aconteceu exatamente hoje e ainda estou tentando me (re)fortalecer. Porém esse texto é minha forma de não ficar calada, pois, como disse Angela Davis:

"Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela"







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